Importação e cross-border

Shein compra Everlane: impacto no cross border

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Shein compra Everlane: impacto no cross border

Em 22 de maio de 2026, a varejista norte-americana Everlane anunciou sua aquisição pela Shein, conforme divulgado pela Folha Mercado. A Everlane era reconhecida por comunicar transparência na cadeia produtiva e valorizar práticas sustentáveis, posicionamento que contrasta com o modelo de fast fashion ultra-acelerado pelo qual a Shein ficou conhecida.

A compra sinaliza uma estratégia clara de expansão da Shein para além do varejo de baixo custo: absorver marcas com credibilidade junto a consumidores exigentes dos Estados Unidos e da Europa. Trata-se de um movimento típico de consolidação de mercado, em que uma empresa de alto volume adquire ativos de marca para diversificar sua base de clientes.

Para o Brasil, esse movimento não é apenas uma notícia do exterior. A Shein já opera com relevância no país, beneficiando-se das regras de importação aplicáveis a compras internacionais de pessoas físicas e jurídicas. A aquisição da Everlane amplia o arsenal competitivo da empresa e intensifica o debate sobre tributação, regulação e fairness concorrencial no e-commerce nacional.

Contexto jurídico e regulatório

Regulação do cross-border no Brasil: o cenário atual

O comércio cross-border de vestuário no Brasil é regido por um conjunto de normas que envolve a Receita Federal, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) e a Secretaria Especial de Comércio Exterior (Secex). Para pessoas físicas, compras internacionais de até US$ 50 por plataformas habilitadas pelo Programa Remessa Conforme estão sujeitas a 20% de Imposto de Importação, sem isenção, desde agosto de 2023.

Antes da mudança de 2023, remessas de até US$ 50 entre pessoas físicas eram isentas, o que gerava distorção competitiva grave. A Medida Provisória 1.269/2024 consolidou a tributação e ampliou a fiscalização sobre plataformas estrangeiras que operam no Brasil, exigindo cadastro na Receita Federal e responsabilidade pelo recolhimento do imposto na fonte.

Empresas como a Shein, habilitadas no Programa Remessa Conforme, recolhem o imposto diretamente, o que legaliza a operação mas não elimina a vantagem de custo operacional em relação à indústria nacional, que arca com ICMS, IPI, PIS, Cofins e encargos trabalhistas completos. O diferencial tributário entre um produto importado via cross-border e um produto fabricado no Brasil ainda é expressivo.

Com a aquisição da Everlane, a Shein passa a ter acesso a uma estrutura jurídica americana consolidada, com ativos de propriedade intelectual registrados nos EUA. Isso facilita operações comerciais com varejistas físicos e digitais norte-americanos e europeus, e pode influenciar futuros pleitos de tratamento regulatório diferenciado junto a órgãos como a Anvisa (para categorias de produtos com requisitos sanitários) e o INPI no Brasil.

Impacto prático

Para lojistas brasileiros de moda e vestuário, a aquisição da Everlane pela Shein representa um alerta concreto. A empresa passa a competir não apenas no segmento de preço baixo, mas também em faixas de mercado intermediárias, com marcas que carregam reputação de qualidade e responsabilidade social. O espaço de diferenciação pelo posicionamento sustentável, que muitos empreendedores nacionais exploram, pode ser diretamente afetado.

Do ponto de vista contábil, importadores brasileiros que revendem produtos de moda precisam revisar seus custos de aquisição e margens. Com um concorrente de escala global ampliando seu portfólio, a precificação baseada apenas em markup sobre custo de importação torna-se insuficiente. A análise de rentabilidade por SKU e a gestão de giro de estoque passam a ser ferramentas essenciais de sobrevivência competitiva.

Há ainda a dimensão cambial. Operações cross-border liquidadas em dólar expõem tanto o consumidor quanto o importador à volatilidade do câmbio. Em 2025, o dólar oscilou entre R$ 5,70 e R$ 6,30, variação que impacta diretamente o preço final ao consumidor brasileiro e a competitividade relativa de produtos nacionais. Empresas que não gerenciam esse risco com hedge ou precificação dinâmica ficam vulneráveis a perdas de margem.

Considerações finais

A compra da Everlane pela Shein é um indicador relevante de como o comércio global de moda está se reorganizando. Empresas com capacidade de produção em escala e acesso a capital estão absorvendo marcas com ativos intangíveis valiosos, como reputação e base de clientes fidelizados. Para o mercado brasileiro, isso significa que a concorrência do cross-border vai além do preço: passa a incluir branding, propósito e narrativa de produto.

Empresários do e-commerce nacional precisam acompanhar de perto as mudanças regulatórias em andamento, incluindo a revisão das alíquotas do Programa Remessa Conforme e as discussões no Congresso sobre tributação de plataformas digitais estrangeiras. Estar bem assessorado juridicamente e contabilmente não é um diferencial, é uma condição básica para operar com segurança nesse ambiente.

Perguntas frequentes

A Shein paga imposto de importação no Brasil?

Sim. A Shein é habilitada no Programa Remessa Conforme da Receita Federal e recolhe 20% de Imposto de Importação sobre compras de até US$ 50 destinadas a pessoas físicas no Brasil. Compras acima desse valor seguem a tributação padrão de importação postal, com alíquota de 60%.

O que é o Programa Remessa Conforme e como ele afeta o cross-border?

O Programa Remessa Conforme é um regime aduaneiro especial criado pela Receita Federal que permite a plataformas estrangeiras operar legalmente no Brasil mediante cadastro e responsabilidade pelo recolhimento de impostos na fonte. Plataformas habilitadas têm processamento mais ágil nas alfândegas, o que reduz o tempo de entrega ao consumidor.

A compra da Everlane pela Shein afeta o consumidor brasileiro?

Indiretamente, sim. A Shein passa a oferecer produtos de uma marca com posicionamento premium e apelo sustentável, ampliando sua competição com marcas nacionais de moda que operam nesse segmento. O consumidor brasileiro terá mais opções de importados, mas a indústria local enfrenta pressão adicional de competitividade.

Lojistas brasileiros podem importar produtos da Everlane para revenda?

Sim, mas a importação para revenda exige habilitação como importador junto à Receita Federal (Radar), pagamento de todos os tributos de importação (II, IPI, PIS, Cofins, ICMS) e conformidade com as regras de propriedade intelectual da marca. A margem precisa contemplar todos esses custos para que a operação seja viável.

Como o câmbio afeta o preço de produtos importados no e-commerce?

O preço de produtos importados em dólar é diretamente impactado pela taxa de câmbio no momento da liquidação da operação. Uma desvalorização do real encarece o produto importado para o consumidor brasileiro, mas pode beneficiar exportadores nacionais. Importadores sem estratégia de hedge cambial ficam expostos a perdas de margem em cenários de alta do dólar.

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